sexta-feira, 28 de junho de 2013

A RELAÇÃO EDUCATIVA NA IDADE DE IGUALDADE

Tema: A Relação educativa na idade de igualdade, Alain Renaut: O fim da autoridade, capítulo 3.

RESUMO:
Neste capítulo Renaut preocupa-se com a relação educativa nas sociedades contemporâneas, sociedades que “igualdade” é palavra chave para todos os sectores em que o poder se exerce. Assim diz Renaut:

“um dos problemas mais complexos das sociedades contemporâneas é assim o de saber como conservar ou voltar a dar consistência aos poderes que se devem exercer hoje em dia, cada vez mais, de igual para igual, entre seres humanos proclamados como livres e iguais em direitos” (RENAUT, 2004:103).

Esta e outras questões semelhantes obrigaram os poderes ( sobretudo o educativo) a encontrar novos caminhos para ultrapassar o problema acima colocado. Não encontrados, a sua autoridade deve obdecer sem escolha duas alternativas: “ou aceitar sem limites a sua fragilização ao ponto de se dissolver, ou a não encontrar como meio de se reforçar nada a não ser o recurso a modos de dominação autoritários”.(ibid).
Colocadas as questões face à crise de autoridade que se instalou na era democrática, Hannah Arendt, citado por Renaut, o seu principal convidado neste debate, avança em 1960 com a primeira denúncia da origem de uma “crise da educação”.
Nesta reflexão, Arendt estabelece um paralelismo entre a dinâmica da igualização e a crise da autoridade, crise que na esfera educativa explica-se pela tentativa de apagar cada vez mais a diferença, tanto entre professores e alunos, pais e filhos como entre os próprios alunos ou filhos. É neste contexto que se coloca a questão mais profunda e central deste debate: “como conceber e sobretudo praticar a relação educativa numa cultura atravessada a esse ponto por uma dinâmica da igualização que faz aparecer o outro, toda a espécie de ‘outro’ como um outro eu, logo como um igual?” (id.104)
De referir que o “outro” que Renaut aqui trata é a criança, é o “pequeno homem”. Que para o autor, na tentativa de libertá-la, pois encontrava-se, digamos sob dominação do adulto, promulgando ou promovendo “os direitos das crianças”, por um lado os efeitos vêm sendo perversos e por outro lado, em nome da emancipação, vem se constituindo um mundo autónomo da infância que no fundo acaba colocando as crianças numa situação pior do que era. Por outras palavras podemos dizer que, aquilo que parecia emancipação, escondia na verdade uma nova forma de tirania ou de despotismo.

Mais radicalizada a questão sobre a dinâmica da igualização levantada por Arendt, dinâmica que nos ilude, pois parece os “pequenos homens” terem atingido a sua autonomia e capacidade para “se governarem sozinhos” e por isso mesmo “banidos do mundo dos adultos”, mas na verdade estes estão agora mais do que nunca entregues a si próprios ou entregues à tirania do seu grupo, ficando neste caso à deriva, sem fonte de inspiração.     

HERMENÊUTICA E ESTRUTURALISMO

HERMENÉUTICA E ESTRUTURALISMO

Noção de Discurso

A hermenéutica preocupa-se com a natureza de compreender em relação à compreensão dos textos. A compreensão visa traduzir, transpôr e vencer a distância que há entre o leitor e o texto.
O texto, uma vez dissociado do autor, torna-se autónomo e coloca problemas específicos numa relação escrever-ler. Mas, a hermenéutica não só é aplicada na relação discursiva escrita-leitura, como também na relação dialógica (falar-ouvir).
Neste caso, a actividade hermenéutica consiste em explicar para compreender/interpretar.
Partindo do entendimento de Schleiermacher e de Dilthey, Recoeur faz uma revisão profunda da relação explicar e compreender. Ele é da opnião de que a explicação visa fazer compreender e que, há uma distância entre o discurso oral e o escrito, que o discurso não é a lingua, visto que a primeira unidade do discurso é a frase e da lingua é a palavra.
Neste senteido, o exercício hermenéutico é cada vez maior quanto mais discurso escrito.
Um dos traços fundamentais de uma teoria de discurso é, em primeiro lugar o facto de se produzir como um acontecimento – algo passivel de ser identificado e reidentificado como o ‘mesmo’. Em segundo lugar é o facto de existir uma polaridade entre a identificação singular e a predicação universal. A singularidade ocorre por via de pronomes próprios, demonstrativos, mas por intermédio de uma predicação universal. Sendo que dissimetria das duas funções (singularidade e  universalizante) implica também uma dissimetria ontológica do sujeito e do predicado.
Outro aspecto que que Recoeur discute é a relação entre o sentido e a referência, uma relação que ultrapassa a da dimensão ilocucionária e perlocucionária do discurso, uma vez que “o discurso diz qualquer coisa sobre qualquer coisa.” Ligado a este aspecto encontramos também a questão da intencionalidade fenomenológica, que nos mostra que a liguagem visa sempre algo que a ultrapssa, tornando-a sempre transcendente de si mesma.
Quanto ao sentido, Frege, citado por Ricoeur, diz que trata-se de um objecto ideal e não uma representação e, Husserl, também citado por Recoeur, do sentido entende como o idéntico, o que num texto aparece como o ‘mesmo’. Esclare o nosso autor: “este apagamento da palavra em face do seu sentido, realiza-o a escrita por esta morte do locutor que a escrita representa.” (id. 161). É este apagamento que torna o autor ausente no texto, legitimando assim a sua autonomia. Resumidamente  escreve Ricoeur:

Em primeiro lugar, há hernenéutica cada vez que há discurso. Decorre de uma teoria de discurso a necessidade de identificar e de reidentificar singularidades a partir de uma dissimetria ontológica entre o sujeito e o predicado. O par sentido – referência exibe a necessidade da linguagem se transcender a si mesma: a sua veemência ontológica. Por fim, a intencionalidade fenomenológica mostra também o apelo à referência.” (id. 162).

Para o autor isto significa elo entre hermenéutica, ontologia e fenomenologia. Onde compreende-se a tarefa hermenéutica quando se sai do discurso em direcção à obra (literária) e da escrita em direcção à ambiguidade que esta veicula. Ou seja, sai-se da lingua (palavra ou discurso oral) à frase (escrita), onde a ambiguidade é notável.
Ricoeur recorda ainda que todo o discurso é produzido como acontecimento para ser compreendido como significação. Onde, o discurso (oral) anseia sempre materializar-se em obra ou composição individual. Daí que quando se fala de um autor tem-se em conta alguém com correlato a individualidade desta ou daquela obra. (cf, Ricoeur, :162).
É neste contexto, que o autor recomenda a necessidade de ler a obra em si, procurando manter sempre uma distância com o autor (autonomia do texto), tendo em consideração a ambiguidade como sendo inerente à obra.
Quanto à ambiguidade diz Ricoeur, “existe porque há uma polissemia da palavra; há nesse ‘átomo de sentido’ aspectos potenciais e actuais, que geram, inevitavelmente, ambiguidade da obra, o que constitui o seu estilo.” (id, 162).
Neste sentido, entendemos que, a obra literária é por natureza ambígua, o seu discurso é irredutível a uma única isotopia (em Gereimas, citado Ricoeur, significa identidade). Sendo que um discurso (literário) sem ambiguidade teria só uma identidade (isotopia), um discurso que reduziria o carácter polissémico das palavras em favor de um sentido determinado (e consequentemente o fim da filosofia, se entendida como uma emissão e interpretação contínua de discursos, orais e escritos).
Em suma, e como já referimos, compreende-se que enquanto a linguagem continuar ambígua, haverá sempre uma hermenéutica em paralelo. Por isso, as interpretações. Portanto, esta pluralidade/polissemia/ambiguidade, é condição única e indispensável para a existência e continuidade da hermenéutica como teoria/arte de interpretar.
E por fim, refere Ricoeur que uma vez identificado o elo entre a hermenéutica e a ontologia a nível do discurso, haverá então um círculo hermenéutico entre o dito – hermenéutica ontológica (para Labarrière) e dizer – hermenéutica dialética. É do círculo entre o dito e o dizer que surge/atinge-se a verdade, isto é, a verdade é gerada pela hermenéutica ontológica e dialéctica.


A dialética entre explicar e compreender
Já vimos que explicar e compreender, entendidos como evento e significação respectivamente, são um complemento dialético. É neste sentido que na tradição alemã a explicação diz respeito às ciências da natureza e a compreenaão às do espírito ou humanas, embora o positivismo tenha feito tudo para reduzir a compreensão à explicação, sob infuência do progresso da física experimental durante o século XVII.
Novas tendências teem vindo a dinamizar o conflito, na tentativa de enfantizar o lado ético e antropológico das ciências. É neste contexto que Ricoeur entra na teoria hermenéutica com a dialética entre explicar e compreender. Dialética esta que para a entender/compreender é preciso antes de tudo considerar a Noção de discurso na relação discurso produzido como evento e compreendido como significação.
Portanto, para ultrapassar efectivamente a dicotomia da hermenéutica romântica ( de Dilthey), é preciso estarmos munidos, acima de tudo, de uma teoria de discurso.
De lembrar que na Noção de Discurso tratamos da relação falar-escrever. Agora vamos tratar de leitura, como fase dinamizadora do discurso (evento do discurso), pois ler um texto ou uma obra imprica compreendê-lo e explicâ-lo. É, pois, a leitura que permite o desdobramento do texto, que consite em analizá-lo para compreendê-lo como um todo-a síntese.
Feito isto, estaremos perante “uma nova acepção, de compreensão, explicação e interpretação, justamente porque no texto se põe em realce a relação evento – siginificação do discurso assim como a relação entre sentido e referência.” (           ,    :164).
É neste sentido que Ricoeur vai detectar a fragilidade da hermenéutica romântica na tentativa de fundamentar a tarefa hermenéutica numa dialética entre explicar e compreender.
Segundo Ricoeur, citado por ________, para, portanto ultrapassar a dicotomia entre explicar, enquanto paradígma das ciências da Natureza, e compreender, enquanto apreensão, directa ou indirecta da entidade psíquica de um semelhante e que sua aplicação é nas ciências humanas, é não apenas rever e corrigir a separação epistemológica desta polaridade como também mostrar que ontologicamente não existe efectivamente dicotomia. E que é neste contexto que surge a noção de interpretação, enquanto processo que abarca a explicação e a compreensão. ( Ricoeur apud      :165).
A seguir Ricoeur vai tratar da noção de conjectura e validação. Refere que “trata-se de mostrar efectivamente como se processa a dialética entre compreensão e explicação’’ (ibid). O autor pretende portanto exclarecer que o problema da interpretação não é devido à incomunicabilidade da experiência psíquica do autor, mas à natureza da intenção verbal do texto.
É na perspectiva de contruirmos, como leitores, um sentido para o texto que fazemos uma conjutura. Mas este não é o fim, temos que validar o que conjunturamos, ou seja, argumentarmos o suficiente.
A este processo todo que abarca o explicar e o compreender como um todo – “dois estadios diferentes de um arco hemenéutico único”, Ricoeur chamou de Interpretação.
O nosso autor transborda da dialética entre o explicar e o compreender, para se concentrar na dialética entre “distanciação (produtiva)” e “apropriação”, onde a primeira fornece resposta à segunda. É neste contexto que rejeita o historicismo com a sua pretensão de haver inteligibilidade apenas se atendermos às condições sociais e culturais que produziram determinado texto ou determinada obra. Para o autor, o texto uma vez dissociado do escritor, é autónomo, é uma espécie de objecto atemporal que, cortou os seus laços com todo o desenvolvimento histórico.
Ricoeur diz ainda que o sentido de uma proposição não é físico nem psíquico, porque possui uma omnitemporalidade-algo que se repete e sempre exposto à actualização pelo leitor. Portanto a apropriação não é de conteúdo psíquico como tal nem tão puco do f’isico, mas do mundo que o texto desenrola em face dele.
Em suma, na dialética entre a distanciação e apropriação, o leitor actualiza o sentido do texto apropriando-se dele: “a distanciação produtiva faz então apelo à apropiação. Eu interpreto, atualizo o sentido do texto quando me aproprio dele.” (id. 167).
Ricoeur insiste, agora mais abertamente, e demonstrando a sua ligação, a necessidade de se permanecer fiel ao espírito da hermenéutica de Schleirmacher, embora o seu pendor subjectivo. E recomenda tamb’em que compreenderíamos melhor o que se entende por “apropriação” quando seguirmos a crítica de Gadamer em Verdade e método, ao subjectivismo da consciência estética defendido por Kant. Onde Gadamer, na sua noção do jogo, mostra que  o que está em causa não é a subjectividade mas a metamorfose que o sujeito sofre a jogar.
Relacionando o carácter lúdico com a apropiação, entende-se que a intenção de Ricoeur será de ir além sujeito, “pois ao apropriarmo-nos do sentido de um texto tal não significa projectar a nossa subjectividade nele, mas antes, um abandono do eu.” (id. 168).
Ricoeur continua esclarecendo que é devido à impossibidade de existir um fechamento desta relação entre o texto e o leitor, que o conflito de interpretação vai perpectuar e, por isso mesmo deve-se decidir entre um conhecimento absoluto e a hermenéutica. E que a explicação se enxerta na compreensão.


Noção do autor

Falar da noção do autor é falar de um dos pontos mais polémicos da teoria de interpretação em Ricoeur. Polémico na medida em que este, para compreender uma obra dispensa a intenção do autor. Esta é uma questão fulcral para Ricoeur, a que o leva distante da hermenéutica romântica e concentrar seus estudos na relação falar-ouvir e escrever-ler.
Ou seja, Ricoeur, ao priscindir a intenção do autor ao querer compreender uma obra literária, opõe-se ao positivismo, ao histocismo e à filologia, correntes que dão mais atenção à intenção daquele que o produziu. Este e os seus argumentam:
“(...) à ser correcta, a explicação pela intenção tornaria a escrita literária inútil, pois bastaria saber qual tinha sido a intenção do autor do autor para se encontrar assim a ‘verdade’ da obra”. (id. 169). Sendo que “ a não transparência da linguagem (por Millarmé) proporcina a ‘desconstrução’ da mesma e o comentário infinito”, (ibid).
Neste sentido entemos que de facto “a noção de autor perde a sua soberania”,  como assume a psicanálise.
Mas doutro lado, Antoine Compagnon refere que a questão da intenção nunca deixou de preocupar a filosofia, a hermenéutica e a retórica. De tal modo que também Platão defendera o diálogo, por se tratar do autor ao vivo, havendo neste caso possibilidade de conhecer as intenções.
Já Schleiermacher é categoricamente intransingivel e insistente na ideia de que “a compreensão de uma obra só é possivel a partir da intenção do autor.” (id. 170). Havendo neste caso necessidade de reconstituir-se o estado original que o criador tinha em vista.  E que por outro lado o texto nada mais nos pode dizer acima do que tinha dito originalmente.
É neste contexto de defesa de intenção que Compagnon fala do “método das passagens paralelas”, que consiste em fazer ressurgir a intenção do autor, para lendo e relendo, como uma forma de comaparar o conteúdo e o alcance do texto com a intenção, possibilitando des te modo assinalar as suas eventuais contradições.
Umberto Eco, outro pensador que entra em cena refere que o texto possui uma estratégia que pretende produzir um leitor modelo – contrapartida ideal de um autor modelo – que portanto tornadesnecessário o autor empírico. (id. 171).
Neste sentido a hermenéutica ao considerar o texto como aquilo que abre espaço para inúmeras interpretações, comoara-se ao hermetismo. Mas estas interpretações não se equivalem, pois o poder da linguagem é plural e o próprio sentido é infinito, não deixando espaço para alguém dizer “compreendi”. Portanto, engana-se quem diz “compreendi”.
Enfim, Ricoeur realça a importância do leitor, como o pólo dialético da escrita, uma vez que ler é traduzir; o escritor traduz a sua experiência, o leitor faz a tradução do texto a partir dos seus pressupostos. Portanto, a tradução abarca o autor e o leitor.