sexta-feira, 28 de junho de 2013

HERMENÊUTICA E ESTRUTURALISMO

HERMENÉUTICA E ESTRUTURALISMO

Noção de Discurso

A hermenéutica preocupa-se com a natureza de compreender em relação à compreensão dos textos. A compreensão visa traduzir, transpôr e vencer a distância que há entre o leitor e o texto.
O texto, uma vez dissociado do autor, torna-se autónomo e coloca problemas específicos numa relação escrever-ler. Mas, a hermenéutica não só é aplicada na relação discursiva escrita-leitura, como também na relação dialógica (falar-ouvir).
Neste caso, a actividade hermenéutica consiste em explicar para compreender/interpretar.
Partindo do entendimento de Schleiermacher e de Dilthey, Recoeur faz uma revisão profunda da relação explicar e compreender. Ele é da opnião de que a explicação visa fazer compreender e que, há uma distância entre o discurso oral e o escrito, que o discurso não é a lingua, visto que a primeira unidade do discurso é a frase e da lingua é a palavra.
Neste senteido, o exercício hermenéutico é cada vez maior quanto mais discurso escrito.
Um dos traços fundamentais de uma teoria de discurso é, em primeiro lugar o facto de se produzir como um acontecimento – algo passivel de ser identificado e reidentificado como o ‘mesmo’. Em segundo lugar é o facto de existir uma polaridade entre a identificação singular e a predicação universal. A singularidade ocorre por via de pronomes próprios, demonstrativos, mas por intermédio de uma predicação universal. Sendo que dissimetria das duas funções (singularidade e  universalizante) implica também uma dissimetria ontológica do sujeito e do predicado.
Outro aspecto que que Recoeur discute é a relação entre o sentido e a referência, uma relação que ultrapassa a da dimensão ilocucionária e perlocucionária do discurso, uma vez que “o discurso diz qualquer coisa sobre qualquer coisa.” Ligado a este aspecto encontramos também a questão da intencionalidade fenomenológica, que nos mostra que a liguagem visa sempre algo que a ultrapssa, tornando-a sempre transcendente de si mesma.
Quanto ao sentido, Frege, citado por Ricoeur, diz que trata-se de um objecto ideal e não uma representação e, Husserl, também citado por Recoeur, do sentido entende como o idéntico, o que num texto aparece como o ‘mesmo’. Esclare o nosso autor: “este apagamento da palavra em face do seu sentido, realiza-o a escrita por esta morte do locutor que a escrita representa.” (id. 161). É este apagamento que torna o autor ausente no texto, legitimando assim a sua autonomia. Resumidamente  escreve Ricoeur:

Em primeiro lugar, há hernenéutica cada vez que há discurso. Decorre de uma teoria de discurso a necessidade de identificar e de reidentificar singularidades a partir de uma dissimetria ontológica entre o sujeito e o predicado. O par sentido – referência exibe a necessidade da linguagem se transcender a si mesma: a sua veemência ontológica. Por fim, a intencionalidade fenomenológica mostra também o apelo à referência.” (id. 162).

Para o autor isto significa elo entre hermenéutica, ontologia e fenomenologia. Onde compreende-se a tarefa hermenéutica quando se sai do discurso em direcção à obra (literária) e da escrita em direcção à ambiguidade que esta veicula. Ou seja, sai-se da lingua (palavra ou discurso oral) à frase (escrita), onde a ambiguidade é notável.
Ricoeur recorda ainda que todo o discurso é produzido como acontecimento para ser compreendido como significação. Onde, o discurso (oral) anseia sempre materializar-se em obra ou composição individual. Daí que quando se fala de um autor tem-se em conta alguém com correlato a individualidade desta ou daquela obra. (cf, Ricoeur, :162).
É neste contexto, que o autor recomenda a necessidade de ler a obra em si, procurando manter sempre uma distância com o autor (autonomia do texto), tendo em consideração a ambiguidade como sendo inerente à obra.
Quanto à ambiguidade diz Ricoeur, “existe porque há uma polissemia da palavra; há nesse ‘átomo de sentido’ aspectos potenciais e actuais, que geram, inevitavelmente, ambiguidade da obra, o que constitui o seu estilo.” (id, 162).
Neste sentido, entendemos que, a obra literária é por natureza ambígua, o seu discurso é irredutível a uma única isotopia (em Gereimas, citado Ricoeur, significa identidade). Sendo que um discurso (literário) sem ambiguidade teria só uma identidade (isotopia), um discurso que reduziria o carácter polissémico das palavras em favor de um sentido determinado (e consequentemente o fim da filosofia, se entendida como uma emissão e interpretação contínua de discursos, orais e escritos).
Em suma, e como já referimos, compreende-se que enquanto a linguagem continuar ambígua, haverá sempre uma hermenéutica em paralelo. Por isso, as interpretações. Portanto, esta pluralidade/polissemia/ambiguidade, é condição única e indispensável para a existência e continuidade da hermenéutica como teoria/arte de interpretar.
E por fim, refere Ricoeur que uma vez identificado o elo entre a hermenéutica e a ontologia a nível do discurso, haverá então um círculo hermenéutico entre o dito – hermenéutica ontológica (para Labarrière) e dizer – hermenéutica dialética. É do círculo entre o dito e o dizer que surge/atinge-se a verdade, isto é, a verdade é gerada pela hermenéutica ontológica e dialéctica.


A dialética entre explicar e compreender
Já vimos que explicar e compreender, entendidos como evento e significação respectivamente, são um complemento dialético. É neste sentido que na tradição alemã a explicação diz respeito às ciências da natureza e a compreenaão às do espírito ou humanas, embora o positivismo tenha feito tudo para reduzir a compreensão à explicação, sob infuência do progresso da física experimental durante o século XVII.
Novas tendências teem vindo a dinamizar o conflito, na tentativa de enfantizar o lado ético e antropológico das ciências. É neste contexto que Ricoeur entra na teoria hermenéutica com a dialética entre explicar e compreender. Dialética esta que para a entender/compreender é preciso antes de tudo considerar a Noção de discurso na relação discurso produzido como evento e compreendido como significação.
Portanto, para ultrapassar efectivamente a dicotomia da hermenéutica romântica ( de Dilthey), é preciso estarmos munidos, acima de tudo, de uma teoria de discurso.
De lembrar que na Noção de Discurso tratamos da relação falar-escrever. Agora vamos tratar de leitura, como fase dinamizadora do discurso (evento do discurso), pois ler um texto ou uma obra imprica compreendê-lo e explicâ-lo. É, pois, a leitura que permite o desdobramento do texto, que consite em analizá-lo para compreendê-lo como um todo-a síntese.
Feito isto, estaremos perante “uma nova acepção, de compreensão, explicação e interpretação, justamente porque no texto se põe em realce a relação evento – siginificação do discurso assim como a relação entre sentido e referência.” (           ,    :164).
É neste sentido que Ricoeur vai detectar a fragilidade da hermenéutica romântica na tentativa de fundamentar a tarefa hermenéutica numa dialética entre explicar e compreender.
Segundo Ricoeur, citado por ________, para, portanto ultrapassar a dicotomia entre explicar, enquanto paradígma das ciências da Natureza, e compreender, enquanto apreensão, directa ou indirecta da entidade psíquica de um semelhante e que sua aplicação é nas ciências humanas, é não apenas rever e corrigir a separação epistemológica desta polaridade como também mostrar que ontologicamente não existe efectivamente dicotomia. E que é neste contexto que surge a noção de interpretação, enquanto processo que abarca a explicação e a compreensão. ( Ricoeur apud      :165).
A seguir Ricoeur vai tratar da noção de conjectura e validação. Refere que “trata-se de mostrar efectivamente como se processa a dialética entre compreensão e explicação’’ (ibid). O autor pretende portanto exclarecer que o problema da interpretação não é devido à incomunicabilidade da experiência psíquica do autor, mas à natureza da intenção verbal do texto.
É na perspectiva de contruirmos, como leitores, um sentido para o texto que fazemos uma conjutura. Mas este não é o fim, temos que validar o que conjunturamos, ou seja, argumentarmos o suficiente.
A este processo todo que abarca o explicar e o compreender como um todo – “dois estadios diferentes de um arco hemenéutico único”, Ricoeur chamou de Interpretação.
O nosso autor transborda da dialética entre o explicar e o compreender, para se concentrar na dialética entre “distanciação (produtiva)” e “apropriação”, onde a primeira fornece resposta à segunda. É neste contexto que rejeita o historicismo com a sua pretensão de haver inteligibilidade apenas se atendermos às condições sociais e culturais que produziram determinado texto ou determinada obra. Para o autor, o texto uma vez dissociado do escritor, é autónomo, é uma espécie de objecto atemporal que, cortou os seus laços com todo o desenvolvimento histórico.
Ricoeur diz ainda que o sentido de uma proposição não é físico nem psíquico, porque possui uma omnitemporalidade-algo que se repete e sempre exposto à actualização pelo leitor. Portanto a apropriação não é de conteúdo psíquico como tal nem tão puco do f’isico, mas do mundo que o texto desenrola em face dele.
Em suma, na dialética entre a distanciação e apropriação, o leitor actualiza o sentido do texto apropriando-se dele: “a distanciação produtiva faz então apelo à apropiação. Eu interpreto, atualizo o sentido do texto quando me aproprio dele.” (id. 167).
Ricoeur insiste, agora mais abertamente, e demonstrando a sua ligação, a necessidade de se permanecer fiel ao espírito da hermenéutica de Schleirmacher, embora o seu pendor subjectivo. E recomenda tamb’em que compreenderíamos melhor o que se entende por “apropriação” quando seguirmos a crítica de Gadamer em Verdade e método, ao subjectivismo da consciência estética defendido por Kant. Onde Gadamer, na sua noção do jogo, mostra que  o que está em causa não é a subjectividade mas a metamorfose que o sujeito sofre a jogar.
Relacionando o carácter lúdico com a apropiação, entende-se que a intenção de Ricoeur será de ir além sujeito, “pois ao apropriarmo-nos do sentido de um texto tal não significa projectar a nossa subjectividade nele, mas antes, um abandono do eu.” (id. 168).
Ricoeur continua esclarecendo que é devido à impossibidade de existir um fechamento desta relação entre o texto e o leitor, que o conflito de interpretação vai perpectuar e, por isso mesmo deve-se decidir entre um conhecimento absoluto e a hermenéutica. E que a explicação se enxerta na compreensão.


Noção do autor

Falar da noção do autor é falar de um dos pontos mais polémicos da teoria de interpretação em Ricoeur. Polémico na medida em que este, para compreender uma obra dispensa a intenção do autor. Esta é uma questão fulcral para Ricoeur, a que o leva distante da hermenéutica romântica e concentrar seus estudos na relação falar-ouvir e escrever-ler.
Ou seja, Ricoeur, ao priscindir a intenção do autor ao querer compreender uma obra literária, opõe-se ao positivismo, ao histocismo e à filologia, correntes que dão mais atenção à intenção daquele que o produziu. Este e os seus argumentam:
“(...) à ser correcta, a explicação pela intenção tornaria a escrita literária inútil, pois bastaria saber qual tinha sido a intenção do autor do autor para se encontrar assim a ‘verdade’ da obra”. (id. 169). Sendo que “ a não transparência da linguagem (por Millarmé) proporcina a ‘desconstrução’ da mesma e o comentário infinito”, (ibid).
Neste sentido entemos que de facto “a noção de autor perde a sua soberania”,  como assume a psicanálise.
Mas doutro lado, Antoine Compagnon refere que a questão da intenção nunca deixou de preocupar a filosofia, a hermenéutica e a retórica. De tal modo que também Platão defendera o diálogo, por se tratar do autor ao vivo, havendo neste caso possibilidade de conhecer as intenções.
Já Schleiermacher é categoricamente intransingivel e insistente na ideia de que “a compreensão de uma obra só é possivel a partir da intenção do autor.” (id. 170). Havendo neste caso necessidade de reconstituir-se o estado original que o criador tinha em vista.  E que por outro lado o texto nada mais nos pode dizer acima do que tinha dito originalmente.
É neste contexto de defesa de intenção que Compagnon fala do “método das passagens paralelas”, que consiste em fazer ressurgir a intenção do autor, para lendo e relendo, como uma forma de comaparar o conteúdo e o alcance do texto com a intenção, possibilitando des te modo assinalar as suas eventuais contradições.
Umberto Eco, outro pensador que entra em cena refere que o texto possui uma estratégia que pretende produzir um leitor modelo – contrapartida ideal de um autor modelo – que portanto tornadesnecessário o autor empírico. (id. 171).
Neste sentido a hermenéutica ao considerar o texto como aquilo que abre espaço para inúmeras interpretações, comoara-se ao hermetismo. Mas estas interpretações não se equivalem, pois o poder da linguagem é plural e o próprio sentido é infinito, não deixando espaço para alguém dizer “compreendi”. Portanto, engana-se quem diz “compreendi”.
Enfim, Ricoeur realça a importância do leitor, como o pólo dialético da escrita, uma vez que ler é traduzir; o escritor traduz a sua experiência, o leitor faz a tradução do texto a partir dos seus pressupostos. Portanto, a tradução abarca o autor e o leitor.


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